Bens Tombados

Publicado em: 27 de Fevereiro de 2014. Última Atualização: 18 de Abril de 2016


O tombamento - uma das formas de proteção de um bem cultural

O tombamento é um ato administrativo realizado pelo Poder Público, nos níveis federal, estadual ou municipal. Tem como objetivo preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo a destruição e/ou descaracterização de tais bens.

Pode ser aplicado aos bens móveis e imóveis, de interesse cultural ou ambiental. É o caso de fotografias, livros, mobiliários, utensílios, obras de arte, edifícios, ruas, praças, cidades, regiões, florestas, cascatas etc. Somente é aplicado aos bens materiais de interesse para a preservação da memória coletiva.  

Não equivale à desapropriação e não altera a propriedade do bem tombado. Este poderá ser vendido ou alugado normalmente, garantindo-se é claro, a sua preservação. No caso de venda, deve ser feita uma comunicação prévia à instituição que efetuou o tombamento, para que esta manifeste prioritariamente seu interesse na compra. As modificações físicas somente podem ser feitas com a autorização e acompanhamento técnico do órgão competente. Em Santo Antônio do Monte esta função é desempenhada pela Secretaria Municipal de Cultura em parceria com o Conselho Municipal de Cultura, Turismo e Patrimônio Cultural.

A solicitação de tombamento de um bem pode ser feita por qualquer cidadão ou entidade representativa pública ou privada e deve ser dirigida, em nosso município, ao Presidente do Conselho Municipal de Cultura, Turismo e Patrimônio Cultural. O pedido será estudado e o parecer, que definirá o tombamento, será fundamentado na importância cultural do bem.

Para o tombamento é necessário a elaboração de um dossiê de tombamento no qual se faz o informe histórico do bem e contextualização do mesmo no desenvolvimento do município, caracterização do bem e seu entorno (descrição e análise), definição da área tombada e seu entorno, diretrizes de intervenção, documentação fotográfica e cartográfica, fichas de inventário e laudos técnicos.

Em Santo Antônio do Monte, são tombados: Prédio da Estação Ferroviária, Escola Municipal Amâncio Bernardes, Casarão Magalhães Pinto, Casarão Monsenhor Otaviano, Arquivo do Executivo e do Legislativo e a Pedreira. Nesta página você encontrará além de um breve histórico , o parecer do tombamento e a ficha de inventário que caracteriza o bem. As fichas foram feitas a partir de 2006. Portanto, em alguns casos, vale a pena conferir o laudo do estado de conservação para ter acesso a dados mais atualizados.


Antigo Prédio da Estação Ferroviária

Destituída há algum tempo dos fins para os quais foi construída, a estação da estrada de ferro da cidade de Santo Antônio do Monte pode ser encarada como documento histórico relevante para a memória não apenas da cidade, mas do Oeste mineiro. Ao longo de sua existência o prédio foi, ao mesmo tempo, materialização e testemunha de diversos aspectos da história brasileira. Sua construção resultou de entrecruzamento da difusão de saberes técnicos vindos da Europa e Estados Unidos, notadamente mecânica e engenharia, com aspectos da política brasileira durante a Primeira República. 

A chegada do transporte ferroviário alterou a própria estrutura física da localidade. De fato, em 1912 a Câmara da cidade autorizava a abertura de uma rua desde as casas de Cezário Luiz Gonçalves e João Luiz de Oliveira, que deveria ir até  o “Largo da Estação”. Esse estava no início de sua construção, pois em 1912 o executivo municipal ficava autorizado a “fazer as desapropriações necessárias no local [em] immediações da Estação da Estrada de Ferro”.   

As alterações não ocorreriam apenas em termos espaciais, pois as obras da ferrovia trouxeram à cidade grande número de operários. A construção da futura estação, que iria proporcionar uma nova ponte de comunicação entre a cidade e locais distantes, significava mudança e novidade em termos de convivência. Representava a inauguração de aspectos da modernização através, por exemplo, da adesão a novos hábitos de consumo e novas formas tecnológicas. Não que isso denote uma suplantação do arcaico, afinal não se deve confundir consumo e tecnologia com direitos políticos. 

A ferrovia deve então ser entendida dentro de amplo processo de difusão de saberes técnicos que melhorariam as condições materiais da população. Transporte, eletricidade e saneamento eram alguns dos elementos materiais desejados pelos corpos políticos como Santo Antônio do Monte e tantas outras cidades interioranas. O que dava o tom das negociações para a obtenção desses avanços materiais eram relações e conflitos entre Governo Municipal, Governo Estadual e os grupos econômicos donos dos empreendimentos ferroviários.   

Nesse jogo de forças estaduais, municipais e companhias privadas foram sendo estruturadas as ferrovias do interior mineiro, muitas vezes o processo correu de forma trôpega e limitada. Entre as cartas do jogo, neste momento da Primeira República, é possível destacar o acerto/conchavo político, a reivindicação da legitimidade política, o poder econômico e mesmo a retórica da dissimulação política. 

A estação foi resultado de barganha entre forças políticas locais e estaduais. Tornou-se possível através do compromisso firmado pelo chefe do Executivo local, Coronel José Batista (mais conhecido como Zeca Batista), que se comprometeu a apóias a candidatura do Marechal Hermes da Fonseca para a Presidência da República Brasileira. A vitória deste deu à cidade o ramal da estrada de ferro. Este, como a maioria das obras de cunho público guardava uma distancia uma distancia considerável do que seria o ideal. Isso é possível de ser constatado observando-se traçado perto de Santo Antônio do Monte. Era sinuoso e possuindo  rampas consideráveis a serem vencidas pelas locomotivas,  pois não o projeto não estava originalmente previsto. 

Os municípios tentavam alcançar seus objetivos se apresentando como a voz das necessidades das populações. Assim, a Câmara de Santo Antônio do Monte convocou seção em setembro de 1914 unicamente para “(...) representar perante ao Excelentíssimo Senhor Doutor Augusto Pestana: Dito Dito Director da Estrada de Ferro Oeste  de Minas solicitando do mesmo uma Estação no lugar denominado “Areias” estaca número 1880 Districto de Santo Antônio dos Campos, por ser esta medida de grande interesse local e muito aproveitável ao Districto da Saúde, pertencente a Santo Antônio do Monte Antônio do Monte.” 

Em 20 de junho de 1915 a Estação de Santo Antônio do Monte foi entregue para funcionamento, com uma celebração ao som da Banda de musica Baeta regida pelo maestro Américo Emygdio da Silva. Além do prédio existia também um girador de locomotivas que foi posteriormente desativado. Em seu local foi construído um alojamento para operários da estrada de ferro.  

Com a estação, como já foi dito, aspectos da modernidade, novos hábitos de consumo e um contato mais rápido com outros locais eram revelados para a cidade. Essas mudanças são evidentes ao se examinar os números 33 e 34 do jornal Porta - Voz, editado na cidade na década de 1920. Era noticiada a chegada à cidade de integrantes de uma comissão que viajou por países da América Latina. Dessa comissão fazia parte Antenor das Chagas Madeira, cidadão de Santo Antônio do Monte. Na seção de anúncios era possível saber os preços no mercado do Rio de Janeiro de café, açúcar  algodão e “carnes verdes” (bois, bezerros e porcos vendidos vivos). 

Modernidades como os serviços de Francisco Fazzi com um aparelho para carregar baterias de automóveis ou a oficina de carpintaria de Alfredo Ferreira de Mello traziam nos cantos dos anúncios a sigla E. F. O. M. por onde os maquinários e produtos dessas atividades eram transportados. Através desses diversos anúncios é possível pensar as atividades desenvolvidas na Estação: a chegada de produtos industrializados e passageiros e o envio de carnes e produtos agrícolas para serem comercializados em outros locais.    

As mudanças alcançaram também os pequenos povoados e comunidades rurais do município, especialmente aquelas cortadas pela via férrea. Em Francisco Braz,  comunidade próxima à ferrovia, foi construída uma infra-estrutura para dar suporte ao transporte ferroviário - prédio da estação com plataforma de embarque, casa para o guarda-chaves e caixa d'água para abastecimento das locomotivas a vapor. A caixa d'água, de fatura inglesa, datada de 1912, foi instalada sobre uma sólida base de alvenaria, mantendo-se em bom estado até os dias atuais. É um dos poucos testemunhos de uma época marcada por uma efervescência socioeconômica e de grandes expectativas de desenvolvimento para aquela comunidade rural.

A partir de então, tornou-se mais fácil escoar a produção das fazendas: grãos como o arroz e o café e os produtos derivados do leite como a manteiga e também gado bovino e suíno. Naquela época vendia-se também a carne seca de porco. Atraídos pela possibilidade de enriquecimento, alguns comerciantes e pequenos industriais se instalaram na região. Na década de 1940, o povoado contava com curtume, fábrica de manteiga de leite, além do comércio de ovos e galinhas que eram enviados para Belo Horizonte através do trem de ferro. 

Córrego do Cedro, uma comunidade próxima ao povoado de Francisco Braz formada por fazendas e sítios distribuídos de forma esparsa, estava inserida na rota da antiga estrada de ferro. Guarda também elementos, como a caixa d'água e a ponte, que são testemunhos dos tempos passados. Tempos estes que são relembrados de forma saudosa por moradores mais antigos da comunidade como o Sr. Alexandrino Olinto das Chagas, um ex- funcionário da antiga ferrovia. Foi ele quem informou que a caixa d´água e a ponte foram construídas em 1915. Relatou ainda  mudanças que confirmam a  diversificação das atividades econômicas na região:

“A caixa foi construída próxima ao Córrego que fornece água para minha fazenda. Mas não prejudicou o abastecimento. Não deixavam faltar água. A ferrovia beneficiava muita gente, o povo vendia muito lenha. Colocava na beirada da linha e os funcionários da ferrovia pegavam. As máquinas traziam tudo que o povo precisava.Tinha até carteiro. O transporte era bom. No princípio tinha dois mistos e dois noturnos. Vinham pessoas da região para pegar o misto que era formado por três carros de passageiros- 1ª e 2ª classes e o do correio. Na frente haviam outros carros fechados para conduzir produtos como feijão e outros com gaiolas para transportar bois e porcos. Os noturnos eram carros especiais com dormitórios, sendo também um de primeira classe e outro de segunda. Na primeira classe, os assentos eram estofados e na segunda de madeira sem revestimento. 

Naquela época tinha saída para todos os produtos.Havia os currais para o embarque do gado em Ermida do Campo. As mercadorias produzidas aqui iam até para o Rio de Janeiro.Sr. Alexandrino, através de seu depoimento, atesta também as mudanças decorrentes da chegada da ferrovia na demografia da comunidade, nos ofícios e nas relações de trabalho. Pode-se perceber a hierarquização das funções, a remuneração através de salários em contraposição ao trabalhador rural da época que, predominantemente era meeiro do proprietário da fazenda ou prestava serviços mal remunerados - “o suficiente para comprar um quilo de toucinho e um quilo de sal”.

“Na beira da ferrovia foram construídas casas para os trabalhadores morarem. Eu fui contratado para ser bandeirinha. Eram três bandeiras: branca que indicava passagem livre; verde que significava cuidado, devagar e a vermelha que alertava para perigo, ou seja, pare À noite utilizava-se o lampião com as luzes coloridas - branca, verde ou vermelha. Era também “rondante” , utilizando um martelo, uma chave e um lampião, deveria verificar os trilhos na parte que era responsável. No tempo de chuva as terras amoleciam e caíam dentro da linha e também algumas pedras. Era preciso tirar tudo... Eh, mas o feitor gostava demais de mim. Eu recebia o salário em dinheiro. O mestre- de- linha trazia os pacotinhos de dinheiro em envelopes e ia pagando todo mundo.”

Nos jornais locais, em 1928, já é possível identificar os problemas decorrentes da distância entre o ideal e o real na construção da estrada de ferro. Uma crítica do jornal Porta Voz mostrava o estado da E. F. O. M.:

“Carros Immundos, velhos e quebrados; horários atrazados; trarifas successivamente augmentadas; mercadorias com immenso retardo; serviço grosseiro de tráfego, com manobras aos solavancos nos passageiros em cada estação; plataformas curtas, composição extensa, obrigando as senhoras e crianças á verdadeiras acrobacias, para galgar Wagons lá fora em tempo chuvoso; difficuldades de toda espécies creadas ás partes, como agora forçando os embarques de gado, em determinadas estações de extremos distantes, no fornecimento de especiaes em taes horas e com taes determinações, que impões esses trabalhos perigosos, em horas avançadas de noites escuras! Eis o estado miserável da Segunda viação da República!” 

Muitas vezes o transporte ferroviário era um exercício de paciência para os usuários. De fato, em 1931, as estradas de ferro Oeste de Minas e Sul de Minas, que já eram unidas, foram agrupadas à Estrada de Ferro Paracatu formando a Rede Mineira de Viação e assim permaneceu até 1965. A Rede Mineira de Viação (R. M. V.) era tão precária que lhe foi dado o apelido de Ruim Mas Vai.  

Durante as décadas de 1950 - 1960 além do movimento cotidiano a estação recebia, vez por outra, os trens de romeiros. Durante estes embarques o local ficava tomado por uma multidão. De Santo Antônio do Monte as peregrinações partiam para a cidade de Aparecida do Norte organizadas pelo pároco da cidade Pedro Paulo Michla.  

Da década de 1980 em diante não foram utilizados mais os trens de passageiros. Foi o advento do automóvel e das estradas de rodagem por onde os produtos chegavam ou saíam de Santo Antônio do Monte. Com isso a passagem da linha férrea pela cidade deixou de ser uma necessidade. Mas o traçado foi mantido pela dificuldade de se empreender um desvio por fora do perímetro urbano. 

No início dos noventa a Estação foi usada para abrigar a Secretaria Municipal de Fomento ao Desenvolvimento e Meio Ambiente. Em 2005 passou a sediar o Departamento Municipal de Cultura, e, até novembro de 2007, diversos acervos arquivísticos e museológicos. Atualmente, a edificação comporta o setor administrativo da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. 

 

Texto: Márcia Bernardes

Referências bibliográficas:

- Ficha de Inventário Estação Ferroviária - 2006

Estação Cultura. Livro de Actas da Câmara Municipal de Santo Antônio do Monte. 1911 - 1918. 

Informações fornecida pelo Senhor Antônio Emídio da Silva. Guarda Chave da estação de Santo Antônio do Monte.

Porta - Voz. Santo Antônio do Monte, 19 de fevereiro de 1928. Nº 33 - 34. pág. 7

 

Ficha de Inventário Estação Ferroviária

 

Acervo do Legislativo e do Executivo
O Acervo do Legislativo e Executivo do município de Santo Antônio do Monte, tombado em 2008, constitui uma fonte para a reconstituição da história do município e até mesmo do Centro Oeste mineiro. Trata-se de acervo único e original composto por 71 livros e cerca de duas centenas de documentos diversos encaminhados ou emitidos pelos poderes Executivo e Legislativo municipais ao longo de sua vida, com datas limites de 1856 a 1978.

Deve-se ter consciência que a formação deste acervo está intimamente ligada ao processo de organização espacial e administrativa do município, iniciado anteriormente à sua emancipação e continuado ao longo do tempo. O povoamento da região remete às ultimas décadas do século XVIII.  Os primeiros ocupantes eram portugueses à quem foram concedidas sesmarias como a seguinte: 

“(...) que tendo respeito a me apresentar com a sua petição, Lopo Barroso Pereira morador desta Villa que no Ribeirão Itaubira junto a Capela de Santo Antonio do Monte Freguesia da Cachoeira e no Termo da dita Villa que se acha devoluta uma rossa que o Capitão Francisco da Rocha Brandão (...)de seu filho o Tenente Manoel da Rocha a qual rossa confrontaria com as do Alferes Manoel Marinho Monteiro, Antonio Rosas Mam(...), Antonio Rodrigues, Custodio de Almeida e dom a de João de Amorim e por que o suplicante queria (...)”

Na passagem para o século XIX ocorreu a formação de uma comunidade de tipo agrícola com forte uso da mão de obra escrava. Até as décadas de 1860-70 o local foi distrito da cidade de Itapecerica, então Tamanduá. Como em vários municípios brasileiros a formação e emancipação e composta por avanços, retrocessos, ganho e perda de regiões que passam a integrar ou são desligadas da sede em função de questões históricas e políticas diversas.  Uma síntese do início deste processo e exposta por Costa no livro Toponímia de Minas. Este autor diz que Santo Antônio do Monte foi:

“Distrito do município de Tamanduá (atualmente Itapecerica) elevada a paróquia por lei 693 de 24 - 5 - 1854. Município e vila por lei número 981 de 3-4-1859, revogada por lei 1248 de 7-11- 1865. Restaurado por lei 1636 de 13-9-1870, que declarou em vigor a lei 981(...)”.

O acervo de documentos é resultado das diversas atividades do poder público, constituindo, em parte um reflexo das transformações desse mesmo poder ao longo do tempo. Mostra aspectos como a passagem do Império a República, o racionamento durante a Segunda Grande Guerra e a representação da História política da cidade em seu caráter oficial. 

Um exame do conteúdo dos documentos do acervo permite a extração de dados interessantes sobre diversos aspectos do município. É possível, através dos livros de atas da Câmara Municipal obter informações que superam os trâmites políticos. Pode-se, por exemplo, visualizar dados sobre a economia do município, tais como: a “indústria pastoril”, a incidência de impostos sobre os diversos tipos de produção, as rixas derivadas do exercício do poder na esfera federal, ou seja, a centralização. Alguns trechos extraídos do acervo podem demonstrar tal possibilidade.

Na ata datada de 03 de agosto de 1890, o município, através da Câmara Municipal, reivindica a passagem da Estrada de Ferro Oeste de Minas pela região do Alto São Francisco conforme era a determinação inicial da Assembléia Provincial. Sobre este fato, pode-se ler:

“(...) esta alteração parecendo-nos altamente desvantajosa (...) resolvemos apresentar protestos justificando (...) a direção que a Assembléia Provincial havia dado a estrada era a seguinte: alto do São Francisco passando pela cidade de Inhaúma em direção a Mata do Ruas. Nesta mata, a cultura do café, outrora embrião, cresce vertiginosamente a uberdade do solo e sua qualidade prima para o cultivo dessa planta cuja colheita ali eleva-se já muitas mil arrobas. O trigo também prospera com vantagem. Além da produção crescente do café nessa mata, temos ainda a do vinho natural em Santo Antônio do Monte, que é talvez a maior do estado e que tende a extinguir-se por falta de meios fáceis de transporte para os grandes mercados (...).”

Percebe-se, portanto, as mudanças possibilitadas pelo transporte ferroviário e a chegada de novas culturas, especialmente o café que se torna, no decorrer da segunda metade do século XIX, o principal produto da economia brasileira, além do relacionamento entre as diversas esferas de poder.

Na data de 01 de junho de 1898, a Câmara crítica a interferência da esfera federal nos assuntos municipais, através da monopolização do comércio da carne. O Governo Federal  contratou um comprador representando a firma Carmo e Cia para a compra do gado. Os boiadeiros reclamam pelas despesas de invernada, pelo desânimo dos vendedores e dos compradores e pelo abandono da indústria pastoril que, na ocasião, segundo os reclamantes, era uma das primeiras do estado. Cita-se ainda que as demais municipalidades estão aderindo a seus protestos. Sendo assim, a Câmara não poderia deixar de “ouvir as reclamações de seus munícipes feridos n'um de seus mais altos interesses. Este município é um dos que exporta grande número de boiadas”. Decidiu-se  reivindicar ao governo federal o fim do monopólio e a restauração das feiras de gado em Benfica e Três Corações do Rio Verde.

E, novamente em 1898, a permanência da luta pela estrada de ferro que somente seria inaugurada em 1915. Reivindica-se que a mesma passe por esta cidade, Esteios, Aterrado e Córrego D'Anta, justificando-se para tanto “as machinas de tecidos do Pará e do Pitanguy e as grandes lavouras cafeeiras de São Carlos do Pântano, Esteios, Aterrado e Córrego D'Anta.”

Os documentos informam ainda sobre as alterações na  estrutura física da localidade para a chegada do transporte ferroviário. Em 1912 a Câmara da cidade autorizava a abertura de uma rua desde as casas de Cezário Luiz Gonçalves e João Luiz de Oliveira, que deveria ir até  o “Largo da Estação”. Na mesma data, o executivo municipal ficava autorizado a “fazer as desapropriações necessárias no local [em] immediações da Estação da Estrada de Ferro”.   

Em setembro de 1914, a  Câmara de Santo Antônio do Monte convocou seção para “(...) representar perante ao Excelentíssimo Senhor Doutor Augusto Pestana: Dito Dito Director da Estrada de Ferro Oeste  de Minas solicitando do mesmo uma Estação no lugar denominado “Areias” estaca número 1880 Districto de Santo Antônio dos Campos, por ser esta medida de grande interesse local e muito aproveitável ao Districto da Saúde, pertencente a Santo Antônio do Monte Antônio do Monte.”  

Em 20 de junho de 1915 a Estação de Santo Antônio do Monte foi entregue para funcionamento, com uma celebração ao som da Banda de musica Baeta regida pelo maestro Américo Emygdio da Silva. Além do prédio existia também um girador de locomotivas que foi posteriormente desativado. Em seu local foi construído um alojamento para operários da estrada de ferro. 

Pode-se acompanhar ainda a regulamentação de impostos, o crescimento da cidade e a consequente necessidade de realizar obras de saneamento, abastecimento de água, rede de esgotos e instalação da “força elétrica”, a reconstrução do Cemitério Público (1913), a instalação da telefônica (discussões de 1917 a 1924). As adequações necessárias às mudanças, tais como a desapropriação de terrenos “no local ou nas imediações da Estação da Estrada de Ferro”. As construções de escolas, estradas e pontes na década de 1940, bem como da Santa Casa de Misericórdia.

Dados sobre educação e cultura tais como “o auxílio às escolas que funcionarem com o número de alunos pobres nunca inferiores a dez“ (1915). Ou ainda, a construção do “Theatro Municipal - 1912”, a autorização para a aquisição de instrumentos musicais para a Corporação Musical Santa Cecília.

Compõem o acervo  reivindicações dos antigos distritos como Saúde e São Carlos do Pântano. Em 1915, os moradores do último pedem autorização para custear os festejos da inauguração da Estrada de Ferro Oeste Minas naquela localidade. Em 1943, diante da determinação do estabelecimento dos limites dos municípios, a descrição das fronteiras, os pedidos de elevação administrativa de alguns distritos e as queixas sobre as perdas territoriais de Santo Antônio do Monte.

Sob o efeito da implantação da Ditadura Varguista, em 10 de novembro de 1938, o Prefeito Dr. Agenor de Oliveira, considerando que “a instituição do Estado Novo trouxe ao país um período de paz e progresso; que o Presidente Getúlio Vargas, seu instituidor se tornou por isto credor da admiração e gratidão do povo brasileiro” e tecendo também elogios ao Governador Benedito Valadares muda a denominação das Praças da Matriz e da Estação para “Getúlio Vargas” e “Benedito Valadares”, respectivamente.

Através de ofícios e decretos pode-se perceber a necessidade de racionamento de produtos como o açúcar, o sal e a gasolina no período da II Guerra Mundial. Em ofício datado de 1943, enviado ao Cel. Raul Pinto Seidel (assistente de coordenação econômica e responsável pelo controle de estoque e distribuição de açúcar e sal), o Prefeito Municipal Dr. Américo Cyrillo notificou:

“População do município: 25.000 habitantes. Na base de 50 g de consumo diário por pessoa, o consumo mensal seria de 37.500 kg. Mas sob racionamento, o total de 25.000 kg seria razoável. O consumo de sal será na base de 40.000 kg mensais, considerando-se o abastecimento da população de 25.000 habitantes, mais os rebanhos bovino, suíno e outros.”

Pode-se verificar, por exemplo, os efeitos da declaração da ilegalidade do PCB pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra em 1947, alegando que o Partido servia aos interesses da extinta União Soviética. Em 14 de Março de 1948, Dr. Sebastião Luiz Oliveira, Prefeito Municipal em resposta ao telegrama recebido da Presidência da República,afirma:

“ (...) regulando os casos de extinção de mandato dos membros dos corpos legislativos da União, dos Estados e dos Municípios”, comunica que em Santo Antônio do Monte “(...) felizmente não existe comunista (...)”

São inúmeras as possibilidades de exploração do acervo considerando-se o viés de interpretação de cada historiador e de cada aspecto abordado. Pelos documentos podemos ter uma visão ampla das particularidades culturais e políticas vivenciadas de uma formação social juridicamente ordenada por referências válidas  para todos, mas sob o comando das diferenças particulares e locais, como as aqui vistas.Há, também, uma dimensão política nas relações socioculturais cotidianas, nos espaços da sociedade, das representações, das imagens e dos sentimentos ditados por um poder hierárquico de justaposição dos diversos níveis. Nas instituições de poder, há um universo de crenças que comandam a vida cotidiana. Nos documentos, pode-se observar atentamente os mecanismos de poder através dos quais as pessoas constroem as relações familiares, as relações com a Igreja, com a comunidade, o Governo.

Ao que parece os documentos que compunham o arquivo da Prefeitura Municipal foram mantidos inicialmente no antigo prédio da Câmara Municipal até a primeira metade do século XX, sendo transferida para o novo prédio da Prefeitura onde ficou até os anos de 1970-80. Neste período foram abandonados em um cômodo, quando parte do acervo foi queimada por funcionários do órgão durante uma limpeza do imóvel. Posteriormente, na década de 1990, o restante dos documentos foi transferido para o porão do Casarão Magalhães Pinto, localizado à Avenida Coronel Amâncio Bernardes, 181, onde funcionava a Secretaria de Educação e Cultura. Entre os anos de 2000 e 2001, parte do acervo foi transferida para a recém criada Secretaria de Fomento ao Meio Ambiente e Cultura localizada na antiga Estação Ferroviária da cidade visto que o antigo prédio passou a sediar a Secretaria Municipal de Assistência Social. Os documentos ficaram guardados de forma improvisada sob a responsabilidade do Departamento de Patrimônio Cultural, então coordenado por Antônio Fernando Gonçalves.  Em 2005 foi criado o Departamento Municipal de Cultura, funcionando no mesmo prédio, que se encarregou dos documentos na configuração que o mesmo assume atualmente. Os documentos foram organizados  na Sede da Secretaria Municipal de Cultura,  de acordo com a instituição produtora e, posteriormente, encaminhados ao Centro de Memória Municipal Dr. José de Magalhães Pinto.

 

Texto: Márcia Bernardes/ Christinne Ottoni
Referências bibliográficas:
-Arquivo Público Mineiro. SC 119. Pág. 66v. 
- COSTA, Joaquim Ribeiro - Toponímia de Minas Gerais . Belo Horizonte: BDMG Cultural, 1997.
- Livro de Actas da Câmara Municipal de Santo Antônio do Monte. 1911 - 1918.  Informações fornecidas pelo Senhor Antônio Emídio da Silva. Guarda Chave da estação de Santo Antônio do Monte. 
-Livro de Atas da Câmara Municipal de Santo Antônio do Monte. 1895 a 1912. Acervo do Executivo e do Legislativo de Santo Antônio do Monte. 
- Livro de Atas da Câmara Municipal. 1873 a 1911. Acervo do Executivo e do legislativo de  Santo Antônio do Monte.
- Livros de Atas, portarias e ofícios. Acervo do Executivo e do Legislativo de Santo Antônio do Monte. 
-Ofício datado de 10/11/1938. SEA/ Acervo do Executivo e do Legislativo de Santo Antônio do Monte. 
- Ofício datado de 1943/ Idem.
- Ofício datado de 1948. Idem.    

 

Parecer de Tombamento
Parecer de Tombamento
Ficha de Inventário Arquivo

 

Pedreira
O sítio natural denominado Pedreira do km 682, localiza-se ao lado da via férrea logo na entrada da cidade, próxima a rodovia MG 050. 

Vale destacar que o transporte ferroviário, inaugurado no município em 1915, além de facilitar o acesso das pessoas a outras regiões, permitiu o escoamento do excedente da produção e o incremento do comércio. Enfim, possibilitou a diversificação das atividades econômicas e a modernização dos hábitos diante das novas mercadorias trazidas pelas locomotivas. 

Pode-se ter uma idéia da influência da Ferrovia no município e  no oeste mineiro examinando-se um exemplar  do semanário local Porta- Voz, “orgam dedicado ao commércio, industria e lavoura”. Na edição de 19 de fevereiro de 1928, encontram-se anúncios de comércios e serviços diversos, sendo que grande parte deles eram encontrados nas proximidades da estação da E.F.O.M. - Estrada de Ferro Oeste de Minas, nas cidades de Santo Antônio do Monte, Divinópolis e Lagoa da Prata. “Fazendas, ferragens, armarinho, calçados, chapéus”, “depositário do kerosene Jacaré e Gazolina Montano”, “máquina de beneficiar arroz”, “Agente do automóvel e pneumáticos”, “oficina de carpinteiro”, “depósito de cal, exportador de carnes e ovos além de serviços de mecânica e alfaiataria. 

As mudanças alcançaram a zona rural do município, sobretudo aquelas localidades por onde passava a alinha férrea. Impactaram ainda o meio-ambiente, não apenas para a colocação dos trilhos mas também na exploração de recursos naturais como granito. De fato apenas com a construção da linha férrea se abria espaço para a exploração da pedreira, pois somente com os trilhos, era possível o transporte do granito em grandes blocos para construção pesada e em pedras menores para servirem de base para os trilhos da linha férrea cuja construção avançava em direção à Garça de Minas. 

Parte importante da paisagem natural do município, a Pedreira se destaca no por dois motivos:  é um local próprio para a prática de esportes radicais como o rapel e a escalada e possui uma vegetação típica do cerrado brasileiro ainda bem conservada. São raras as informações sobre a história do imóvel. Isso se deve, em parte a dificuldade de se localizar dados na Rede Ferroviária Federal, empresa que explorou a retirada do granito no local e abandonou a atividade na pedreira no final da década de 1980. 

A Pedreira do km 682 Linha Garças de Minas / Santo Antônio do Monte, atualmente, um grande paredão de rocha, tornou-se alvo de exploração, provavelmente entre as décadas de 1930 e 1940. De fato, segundo o relato do sr. João José de Souza, antigo operário da pedreira: 

“(...)meu pai trabalhava na rede ferroviária em Marilândia, no município de Itapecerica. O trabalho lá acabou e ele veio para a pedreira em Santo Antônio do Monte com a família. Nessa época eu tinha uns seis ou sete anos.” 

Considerando que o entrevistado nasceu em 1936, pode dar-se como certo que o estabelecimento já funcionava desde a primeira metade da década de 1940. As atividades da pedreira, feitas diretamente pela Rede Ferroviária federal, prosseguiram até 1958, quando foi transferida para as empresas  Confer e Nardele.

Era extraído o granito em grandes blocos para construção pesada e o granito em menor tamanho, que servia de base para os trilhos da ferrovia. A produção, aproximadamente, 4100 metros cúbicos de pedra por dia, era vendida para diversas cidades, principalmente Araxá. A atividade consistia na explosão planejada da pedra, sendo o granito então quebrado e separado ou seguindo em grandes blocos para seu destino pelo los vagões do trem de ferro. O barulho da explosão da rocha alcançava longas distâncias, sendo ouvido em toda a cidade. 

Segundo o Sr. João José de Souza, nas décadas de 1950 a 1970, cerca de quinze famílias residiam na Pedreira. Na maioria transferidas de outras regiões do estado para trabalharem na exploração do granito. As relações sociais eram bastante dinâmicas e os vínculos estabelecidos faziam com que aqueles que se mudavam retornassem para visitas e encontros nos finais de semana. Funcionava no local uma escola de primeira a terceira série, sendo que a professora ali residia. Alguns membros das famílias que moravam na pedreira trabalhavam em Santo Antônio do Monte nas fábricas de fogos.

Em 1976, a Rede Ferroviária Federal reassumiu a exploração do local, encerrando as atividades durante a década de 1980. A Prefeitura Municipal adquiriu a propriedade em 2002 mediante a aprovação da Lei nº 1679 de 08 de maio. Segundo a lei, “Fica o poder executivo autorizado a adquirir, para incorporação ao patrimônio público da municipalidade o imóvel urbano remanescente de propriedade da Rede Ferroviária Federal S. A -RFFSA, localizado em Santo Antônio do Monte, denominado Pedreira do KM682, pelo preço estabelecido através de avaliação no valor de R$17.500,00 (dezessete mil e quinhentos reais).”

Desde então, a Prefeitura Municipal retira pouca quantidade de pedras para serem colocadas nas estradas rurais objetivando manter as estradas bem conservadas. Trata-se de extração esporádica e realizada em menor escala do que em épocas passadas. 

O acesso ao local se dá por uma rodovia municipal em terra batida. No momento, o terreno, pertencente a Prefeitura de Santo Antônio do Monte, é usado para a prática de escalada nas modalidades “bouder”, ou seja, escalar pequenas alturas sem o uso de cordas e equipamentos de segurança e também a escalada em “top-rope” ou seja, a escalada em maior altitude com grampos de metal fixados no alto das pedras por onde se passam as cordas e o material de segurança. Como trata-se de uma área de cerrado ainda bem conservada o local pode ser utilizado também para passeios e piqueniques. 

O local, bastante próximo à área urbana, no sentido geográfico de expansão desta, oferece oportunidades para a prática do lazer e opções para o turismo, ainda tão escassas no município. A defasagem de lazer e práticas esportivas atinge principalmente os jovens. Este sítio natural, pelas suas características peculiares- o imenso paredão de pedra, a densa vegetação no seu entorno tornam- o convidativo para este público. Portanto, preservá-lo é uma forma de garantir a memória de uma atividade econômica que marcou o município e também de garantir às futuras gerações um espaço natural bem próximo à cidade ou quem sabe, em algumas décadas, dentro do espaço urbano.

 

Texto:  Márcia Bernardes/ Analuce Abreu de Araújo/Luciano Sena

Referências bibliográficas:

Porta Voz. Santo Antônio do Monte 19/02/1928, números 33 e 34. pág. 6-7. Acervo Secretaria Municipal de Cultura de Santo Antônio do Monte.

Entrevista de  João José de Souza, antigo operário da Pedreira, 01/2007. pág. 01 Acervo Secretaria Municipal de Cultura.  

Prefeitura de Santo Antônio do Monte. Lei nº 1679 de 08 de maio de 2002. Fonte: Gabinete do Prefeito.

 

Ficha de Inventário da Pedreira
Parecer Pedreira 01
Parecer Pedreira 02

 

Casarão Monsenhor Otaviano

A casa em que morou Monsenhor Otaviano José de Araújo, pároco de Santo Antônio do Monte durante 50 anos, que faleceu no dia 6 de fevereiro de 1928, foi adquirida pela Prefeitura Municipal, em nome do povo santo-antoniense. A Municipalidade recebeu a escritura da histórica propriedade, no dia 19 de fevereiro de 2014, em solenidade de caráter religioso, composta de missa celebrada à porta do casarão, com a presença de grande público.

O antigo casarão em que viveu o venerado "Padrinho Vigário", que anteriormente já havia sido tombado e integrado ao patrimônio histórico da cidade, agora pertence aos cidadãos de Santo Antônio do Monte, graças à sensibilidade da Administração Municipal 2013/2016 em relação à valorização das tradições e raízes que constituem o jeito de ser e agir da gente santo-antoniense.

O imóvel  foi residência do padre da Paróquia de Santo Antônio do Monte entre o final do século XIX e primeiro quartel do século XX. Encontra-se bem conservado sendo um marco para a memória coletiva local da pessoa e da atuação de seu antigo proprietário. 

Construído durante o Brasil imperial, o casarão guarda muitas características dessa época. Como a estrutura feita com pesadas toras de uma madeira muito resistente denominada aroeira, janelas e portas de madeira, piso assoalhado e sob este o porão. 

Monsenhor Otaviano , nasceu aos 05 de junho de 1850 em Itapecerica, Minas Gerais , então denominada “Tamanduá”. Filho do fazendeiro Major Honório de Araújo e D. Firmina Gabriela de Goes e Lara. Manifestando vocação religiosa, após iniciar os estudos na terra natal, matriculou-se no Seminário Menor em Mariana e posteriormente, em 1870,  estudou  no Colégio Caraça. Em 1877, já ordenado, foi enviado para a paróquia de Santo Antônio do Monte  onde permaneceu até sua morte em 1928. Foi um dedicado pároco, que amealhou o respeito e admiração dos fiéis atendendo quando os limites de Santo Antônio do Monte eram ainda maiores do que na atualidade. “Foi o anjo tutelar de Santo Antônio do Monte! Sempre atento à integridade e aos bons costumes e à harmonia das relações entre seus paroquianos, conseguiu pela sua bondade, pela sua moral inatacável, pela sua consciência pura, pelo seu espírito conciliador e pelo seu grande caráter, estabelecer um culto de respeito mútuo entre todos aqueles que viviam em contato com sua venerando pessoa (sic). Nele tudo revelava carinho, benevolência e desprendimento, aspectos marcantes de sua personalidade, toda inclinada à prática evangélica da caridade sem distinção de categoria social.”

No seu testamento pode-se perceber parte do caráter desprendido e humilde e convicto de sua fé , o religioso escreveu: “(...) Sou católico, apostólico, romano, em cuja fé tenho vivido e protesto morrer (...) Declaro para evitar suspeitas e maledicência relativa aos meus herdeiros aqui instituídos e de muito especialmente quanto à de nome Albertina Teixeira que não deixo dinheiro, encontrando-se apenas entre os meus bens alguns créditos. Quero ser sepultado no cemitério desta cidade, recomendando porém, que o meu enterramento seja feito sem pompa e que não me erigam (sic) mausoléo (sic). Por minha alma será rezado um oitavarios de missas; outro por alma de meus finados paes, irmãos, irmãs e cunhados, e trinta missas pelas daquelas pessoas com as quais tive negócios.(...)”

Sua residência, descrita em 1928 como “(...) uma casa,  coberta com telhas, assoalhada, envidraçada, com instalações de água e luz elétrica, com quintal arborizado de (8.640 m² ) oito mil e seiscentos metros quadrados com pequeno rego d'água, situada no Largo Dom Viçoso,desta cidade,confrontado com propriedades de D. Jovita Dias Maciel, José Fraga da Fonseca, Alexandrino José Souto e outros avaliada por 10:000$000 dez contos de réis, um pastinho anexo a casa acima descrita e avaliada tendo uma área de (1 ½) um e meio alqueires de terreno, com as mesmas confrontações, avaliado por(...)1:000$000, um conto de réis (...)”, estava localizada em extensão de terra relativamente grande, sendo conhecida como Chácara do Monsenhor Otaviano. 

Os móveis da casa  proporcionavam, para os padrões da cidade naquela época,  um relativo conforto. Graças aos esforços dos sucessivos herdeiros, grande parte deste mobiliário e também objetos de uso decorativo e pessoal, encontram-se dispostos da mesma forma que Monsenhor Otaviano os deixou quando morreu.  Pode-se encontrar no inventário do antigo pároco a enumeração dos seguintes móveis: “(...) um sofá- duas cadeiras de balanço- doze cadeiras de palhinha - seis cadeiras de tábua - uma espreguiçadeira de pano - uma cadeira de vime - um genuflexório - uma mesa de vinhático - uma mesa de jantar - uma secretária - três cofres de madeira - uma cama de solteiro - um armário velho com livros - um toilette - um par de canastras velhas - um bahú velho de folha - duas caixas faqueiros - um relógio de mesa - um relógio de ouro para algibeira, com corrente e medalha também em ouro - dois pares de botões de ouro para punhos. (...)”.

Foram herdeiros do Monsenhor Otaviano José de Araújo os filhos da sua irmã Rita Idalma de Araújo: “Albertina Teixeira, Caliméria Bernardes, viúva de Alexandre Guimarães Bernardes, Braulina Greco, casada com Aniello Greco e José Oscar Teixeira.Atualmente, após as sucessivas heranças o imóvel é de propriedade dos irmãos Greco Rodrigues, filhos de Dr. Otaviano Rodrigues do Santos e Firmina Greco, Nhazinha, (filha de Braulina Greco e Aniello Greco) que, ao longo do tempo, têm se desdobrado para preservar o imóvel. 

Portanto, dentre as informações sobre o casarão que denotam sua importância para o município é possível apontar, além da permanência da maioria das características originais da construção, o rico mobiliário que ainda permanece em seu interior. Muitas das peças foram feitas pelos escravos da fazenda do pai de Monsenhor Otaviano. Outro elemento que confere grande importância histórica à casa são as pinturas feitas nas paredes dos corredores representando paisagens. Estes trabalhos foram efetuados durante uma reforma do imóvel, em 1916, pelo pintor italiano Ângelo Pagnaco, o mesmo que decorou a antiga matriz barroca da cidade, que não mais existe. Vários retratos do Monsenhor Otaviano e de seus familiares, feitos quando estes ainda eram vivos decoram espaços da casa.  

Sobretudo, deve-se destacar os laços de fé que o unem a população de Santo Antônio do Monte. Para muitas pessoas da comunidade, o padre é um verdadeiro “santo”. E, até recentemente, quando eram permitidas as visitas, não eram poucos aqueles que se dirigiam ao casarão para rezar no “quarto do Padrinho Vigário”. Frequentemente o nome do padre é citado nas entrevistas feitas na zona rural do município. “Monsenhor Otaviano dormiu aqui nesta casa. Ele vinha a cavalo para celebrar e visitar a comunidade. ” Na fala humilde transparece a fé e o orgulho em ter acolhido o prestimoso monsenhor. 

O casarão e seu mobiliário permanece até a atualidade como testemunho de uma pessoa que através de seu carisma e seriedade conseguiu lugar na memória coletiva da cidade. 

 

Texto: Márcia Bernardes

Referências bibliográficas:
Dossiê de tombamento do Casarão Monsenhor Otaviano. 2007. SMCT. 
ARAÚJO, José Geraldo de. Monsenhor Otaviano José de Araújo, esboço biográfico. Belo Horizonte, Ed. Minas Gerais, 1950.
Inventário post mortem de Monsenhor Octaviano José de Araújo- 05 de março de 1928. pág. 6, 6 v e 7. Arquivo do Judiciário da Comarca de Santo Antônio do Monte. Acervo da Secretaria Municipal de Cultura.
MORAES, Dilma- Famílias que construíram Santo Antônio do Monte- Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1997, volume II.
Entrevista Antônio Greco Rodrigues (familiar de Monsenhor Otaviano). Acervo Secretaria Municipal de Cultura. 

 

Parecer de Tombamento
Ficha de Inventário Casarão Monsenhor Otaviano

 

Escola Municipal Amâncio Bernardes
   

Histórico

A criação oficial do Grupo Escolar Amâncio Bernardes ocorreu através do Decreto Lei nº 4.049 de 18 de novembro de 1913 durante a administração do Padre José Baptista dos Santos. Posteriormente, em nove de setembro de 1916, celebrou-se um contrato entre o construtor Angelo Perillo e o Poder público municipal para a construção da escola. O custo total foi de quarenta e sete contos duzentos e sessenta e cinco mil quatrocentos e sessenta e dois réis. Uma parte paga pelo Estado e outra pelo Executivo Municipal. Ficou estabelecido que o grupo escolar seria entregue em oito meses contando do início da obra.

Em 30 de setembro de 1917 foi inaugurada a escola, quando era chefe do executivo municipal o Coronel Amâncio Bernardes, cujo nome foi dado à instituição. Com a inauguração “(...) foram suprimidas as três escolas isoladas e os professores foram aproveitados no novo estabelecimento. Entre eles: Constância das Chagas Madeira, Rodolpho Leite de Oliveira e Miguel Eugênio de Campos.”

A Escola Amâncio Bernardes durante longo período tornou-se um marco na educação do Município. Sua concepção obedeceu aos padrões do saber pedagógico do início do século vinte tendo por base Claparede. Por ela passaram muitas gerações de  santantonienses que viriam a exercer sua vida profissional em diversas cidades brasileiras.

Em 1929 foi inaugurada a biblioteca pedagógica Dr. Francisco Campos. Em março de 1932 instalou-se a Biblioteca infantil  Erilda Célia Pereira. As duas bibliotecas foram reunidas em sala própria em fevereiro de 1964 mantendo-se o nome de Erilda Célia Pereira. No ano de 1976 foi iniciado um anexo do prédio (primeiro andar) inaugurado em 30/09/1976. Em trinta de setembro de 1986 foi inaugurado o segundo andar. A quadra esportiva, hoje desativada, foi inaugurada em dezesseis de novembro de 1984.

Em 29 de novembro de 1980 foi inaugurado na escola o Museu Teresa Adami de Carvalho. Após um tempo em exposição o acervo deste museu foi armazenado em espaço reduzido tendo permanecido assim até agosto de 2005 quando foi transferido para o Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal, para ser reorganizado. Atualmente, encontra-se alojado no Centro de Memória Municipal.

Atualmente a escola pertence à  rede municipal de ensino, e está localizada à Praça Getúlio Vargas, Nº 154, no centro de Santo Antônio do Monte, é dirigida por Margarete de Lourdes Resende.

 

Texto: Luciano Sena/Márcia Bernardes

Referências bibliográficas:

Ficha de Inventário da Escola Municipal Amâncio Bernardes./ Inventário Cultural 2009. SMCT.

Prefeitura Municipal. Arquivo do Departamento de Cultura. Livro de Contratos da Câmara Municipal. 1916 - 1935. fl. 01 - 03.

MORAES, Dilma. Santo Antônio do Monte, Doces namoradas políticos famosos. Belo Horizonte, 1983. Edição da Autora. Pág,. 119. 

 

Ficha de Inventário Escola Municipal Amâncio Bernardes
Laudo do estado de conservação

 

Casarão Magalhães Pinto
Um pouco da história do Casarão...

O Casarão que foi escolhido para guardar um rico acervo de objetos e documentos de valor histórico de nossa cidade, se localiza no coração do centro histórico da cidade de Santo Antônio do Monte. Nesta região aconteceu a primeira ocupação do município. O povoamento deu-se entre os séculos XVIII e XIX.

É dos poucos edifícios que resistiram ao tempo. A maior parte dos casarões que existiam ali deram lugar a prédios e a construções mais modernas.

A construção do Casarão aconteceu por volta de 1905 financiada pelo Coronel José Batista dos Santos. O coordenador da construção, famoso na região, chamava-se Antônio dos Santos Ferreira. Vale contar uma curiosidade interessante: na massa do reboco das paredes internas das residências usou-se leite ao invés da água garantindo uma textura lisa e brilhante. As paredes eram uma parte em adobe e a maioria em pau- a- pique.

O imóvel  tinha padrões requintados para a época: as estruturas eram reforçadas por pesadas toras de madeira (aroeira); foram trazidos pintores do Rio de Janeiro para embelezar a residência com técnicas variadas de pintura; nos beirais foram colocados lambrequins.  Estes detalhes revelam que os proprietários tinham um certo poder aquisitivo.

Os primeiros moradores do Casarão foram o Coronel José Caetano de Magalhães Pinto - Juca Pinto e sua esposa D. Maria de Magalhães Pinto- D. Maricota e sua família. Ela era professora e, em 1907, foi instalada a primeira escola para meninas da cidade no andar térreo do imóvel.

Foi ali que nasceu também o filho mais conhecido do casal: José de Magalhães Pinto, em 1909. O menino Juquinha se tornou político de projeção nacional: foi governador de Minas Gerais e Senador da República, além de bem sucedido empresário.

Em 1911, o Coronel Juca Pinto vendeu a casa para  o Sr. Belchior Francisco de Oliveira que por sua vez a vendeu para o Padre Zeca Batista, filho do Coronel José Batista dos Santos.  Em 1920, o Padre Zeca vendeu o Casarão para João Rodrigues da Costa Sobrinho. Seus herdeiros venderam o imóvel em 1979 para empresa CEBEPÊ, administrada pela família Magalhães Pinto. Em 2004, o imóvel foi adquirido pelo município de Santo Antônio do Monte.

Além de residência, o Casarão, no decorrer do tempo , abrigou  várias secretarias e, em 2007, passou a sediar o Centro de Memória Municipal denominado  Dr. José de Magalhães Pinto.

 

Texto: Márcia Bernardes

Referências bibliográficas:

Dossiê de Tombamento do Casarão Magalhães Pinto. 2005. SMCT.

 

Ficha de Inventário Casarão Magalhães Pinto
Parecer de tombamento do Casarão Magalhães Pinto

 




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